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Associação de Antigos Amadores de Recitais de Guerra e Holocausto

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A Verdadeira História do Levante do Gueto de Varsóvia

A Lenda

 

por S. E. Castan


A seguir apresento uma pequena parte do que a imprensa nos brindou na semana de 19 de abril de 93, quando o sionismo festejou o cinquentenário do intitulado "levante", do gueto de Varsóvia, apresentando-o como o maior ato de heroísmo de todos os tempos:

Em Zero Hora, de Porto Alegre, de 18/4/93, pg. 3: do escritor Moacyr Scliar, membro da comunidade judaica (pichador de suásticas na juventude), em sua coluna:


"E em 1943 ocorreu um acontecimento de extrema significação, que será lembrado neste 19 de abril - Levante do Gueto de Varsóvia. Confinados num verdadeiro campo de concentração urbano, enviados para o extermínio ou massacrados no local, os poucos judeus que restavam em Varsóvia decidiram fazer da morte heróica um protesto contra a barbárie nazista e a 19 de abril saíram às ruas, esfomeados, em farrapos, e mal armados, para enfrentar a mais poderosa máquina de guerra que o mundo conhecera. Foram trucidados em massa, mas deram ao mundo uma lição inesquecível."

Também em Zero Hora de 18/4/1993, pg. 32: "Em 19 de abril de 1943, 2.000 soldados alemães transpuseram os muros de concreto. Foram recebidos à bala".

"Famintos, usando apenas armas leves, algumas metralhadoras e bombas de fabricação caseira, os judeus do gueto de Varsóvia resistiram ao poderio da máquina alemã durante 28 dias."

No Correio do Povo de Porto Alegre, de 19/4/93, pg. 6: "Judeus de todo o mundo celebram os 50 anos da destruição do gueto de Varsóvia pelos alemães. A ação promovida por 850 soldados e 16 oficiais alemães, contra 1.500 guerrilheiros judeus poloneses famintos e mal armados, provocou a morte de mais de 14.000 pessoas."

No O Estado de São Paulo, de 19/4/93, pg. 8: "460.000 Mortos depois o gueto de Varsóvia se rebelou. Foi então que mais de 14.000 morreram num combate travado por 1.500 guerrilheiros famintos e mal armados, contra o exército mais poderoso do mundo". "Às 6 horas da manhã, os 850 soldados e 16 oficiais que penetram no gueto atrás de um tanque, dois carros blindados e alguns colaboradores judeus, são recebidos à granada na esquina da Rua Nalewski e Gensa. Fogo no tanque. Morrem 12 alemães. Retiram-se". "Lutaram por 28 dias. Ao todo, os mortos no gueto ou deportados para execução, foram 56.000. Muitos se mataram ou pediram a amigos que os matassem, para que não caíssem prisioneiros."

Na Folha de São Paulo, do sionista Roney Cytrynowicz, pg. 10: "Há 50 anos, no dia 19/4/43, cerca de 750 jovens (sic) entre 18 e 25 anos desencadearam no gueto de Varsóvia a 1a revolta urbana na Europa ocupada pelo nazismo. Armados com apenas 100 rifles e algumas poucas centenas de revólveres e granadas, os combatentes judeus resistiram por quase quatro semanas, diante da máquina bélica alemã, que utilizou tanques pesados, artilharia e lança-chamas."

No Correio do Povo, de Porto Alegre, de 20/4/93, pg. 10: "O levante do gueto ocorreu quando restavam menos de 50.000 esfomeados. Eles tinham 9 carabinas, 59 revólveres e uma centena de granadas contra os nazistas. O vereador Isaac Ainhorn fez uma análise histórica da descriminação."


O Que Realmente Aconteceu

Para decifrar o que realmente aconteceu no gueto de Varsóvia, foram consultadas as seguintes fontes: La Bataille du Ghetto de Varsovie, vue et racontées par les Allemands, editado pelo Centro de Documentação Judaica Contemporânea, de Paris, 1946; as aventuras da ativa combatente judaica Ziviah Lubetkin, da Edit. VVN de Berlim-Postdam, de 1949; as explicações do judeu Bernard Goldstein, em La Bataille du Ghetto de Varsovie, editado pela Europäische Verlagsanstalt, Hamburgo; os boletins de informações diárias do general-major Jürgen Stroop e do historiador judeu Josef Tenembaum, citado na revista Shalom-Análise Nº 3.

No decorrer do relato dos acontecimentos ficará bem claro que não houve nenhum "levante" judaico em Varsóvia no dia 19 de abril de 1943; o que houve foi apenas o início da repressão alemã, que visava acabar com uma onda de atentados e sabotagens que vinham sendo praticados há muito tempo pelos guerrilheiros infiltrados no gueto.

Quando os alemães invadiram a Polônia em 1939, depararam-se com um problema que não conseguiram resolver de imediato, assim como também não o tinham conseguido os próprios poloneses em vários séculos. Antes da entrada das tropas alemãs, viviam na Polônia 3.300.000 judeus (28% da população de Varsóvia era judaica). Sempre bem informados, centenas de milhares deles fugiram para a União Soviética e para o sudeste antes do ataque alemão. Acredita-se que muito mais de um milhão de judeus tenha passado clandestinamente as fronteiras de 1939 a 1944. Grande parte dos judeus não tinham trabalho nem ganhos. Entre os poloneses e judeus existiam tensões perigosas, que mesmo encontrando uma válvula de escape em continuadas refregas, sempre explodiam em novos pogroms, com pesadas vítimas. Já em 1930, por ocasião do assassinato de um soldado polonês em Minsk-Mazowietsky, houve pogroms sangrentos, os quais aumentavam sempre mais as diferenças entre esses dois grupos humanos. O governo polonês viu-se obrigado a acabar com as maquinações secretas que visavam desestabilizá-lo com um golpe de Estado, aprisionando um importante número de judeus no recém criado campo de concentração polonês de Katuz-Bereza. Já antes da guerra fora discutido na Polônia o plano de tirar os judeus daquele país e levá-los para outro lugar, nascendo assim, nos círculos poloneses, naquela época e pela primeira vez, o "Plano Madagascar". Mesmo em 1946, quando a II Guerra Mundial já