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Associação de Antigos Amadores de Recitais de Guerra e Holocausto

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A INDÚSTRIA DO HOLOCAUSTO

O livro do escritor judeu Norman Finkelstein

 

Historiador identifica uma indústria do Holocausto

Norman Finkelstein disseca os motivos do interesse da mídia pela questão judaica

 

Em 'A Indústria do Holocausto', Finkelstein levanta questões explosivas, como as indenizações aos sobreviventes do genocídio, que não chegariam ao destino


UBIRATAN BRASIL

A mais remota lembrança do Holocausto que o historiador americano Norman Finkelstein guarda na memória é a imagem de sua mãe com os olhos fixos na televisão, assistindo ao julgamento do ex-oficial nazista Adolf Eichmann, em 1961: enquanto acompanhava, ela folheava, nervosa, livros sobre o Gueto de Varsóvia. Então com 9 anos, Finkelstein não conseguia relacionar as fotos de pessoas esfomeadas e condenadas ao extermínio que via nos livros com a vida de seus pais, naquela tarde bucólica, no Brooklyn, típico bairro de judeus ortodoxos. "Quando eu era pequeno, o holocausto não era tema de conversa entre adultos", conta Finkelstein, em entrevista ao Estado. "O assunto só veio à tona depois da Guerra dos Seis Dias, em 1967, quando os Estados Unidos perceberam ser Israel o parceiro ideal no Oriente Médio." A forma como aconteceu, porém, e as devidas conseqüências deixaram-no revoltado.

Professor da Universidade de Nova York, Norman Finkelstein decidiu então escrever um livro polêmico, contestando o que julga ser a excessiva vitimização do povo israelita. Em A Indústria do Holocausto (Record, 160 págs., R$ 20) , ele busca dissecar os motivos que norteiam o interesse da mídia e de instituições governamentais pela questão judaica. Judeu e filho de sobreviventes de campos de concentração, Finkelstein não trata de um assunto novo, mas a forma provocante e o tom direto de seu discurso despertaram polêmica. Para ele, o Holocausto é uma indústria que exibe como vítimas o grupo étnico mais bem-sucedido dos Estados Unidos, o que permite a apropriação de mais verbas e, ao mesmo tempo, articular uma campanha de autopromoção por meio da imagem de vítimas. Outro ponto polêmico na argumentação de Finkelstein é o pagamento de indenização aos sobreviventes do genocídio. Segundo sua tese, o dinheiro não chega ao seu destino e, no extremo do exagero, o número de sobreviventes dos campos de concentração é aumentado para chantagear bancos suíços, indústrias alemãs e países do Leste Europeu em busca de mais verbas. Com isso, conclui, o anti-semitismo volta a aflorar no continente. Inicialmente ignorado quando lançado nos Estados Unidos, A Indústria do Holocausto mereceu poucas, mas violentas críticas.

Como a do jornal The New York Times, que classificou o livro de "indecente, venenoso, nojento" e outros adjetivos. Na Inglaterra, a recepção não foi menos polêmica - o título da crítica do The Independent parafraseia o filme O Homem que Sabia demais, de Alfred Hitchcock: "O Homem que Falou Demais". E, ao longo do texto, há uma questão crucial: "Como um filho de sobreviventes dos campos de concentração pôde dizer tais coisas?" Na Alemanha, onde o livro foi lançado no início de fevereiro, o rastro de ódio continuou. Lá, A Indústria do Holocausto foi considerado uma espécie de resposta à obra de outro americano, Daniel Goldhagen, que, em Os Carrascos Voluntários de Hitler (Companhia das Letras, 656 págs., R$ 39,50), defende a tese de que praticamente toda a população da Alemanha colaborou com os nazistas no extermínio de judeus. Também em São Paulo, a repercussão foi forte. "Nenhuma entidade judaica tira vantagem do terror", garantiu, em entrevistas, o rabino Henry Sobel, presidente do Rabinato da Congregação Israelita Paulista. Alheio ao tumulto, Finkelstein continuou com suas críticas, disparando ironias (o sofrimento provocado pelo Holocausto foi reduzido, segundo ele, à estatura moral de um cassino em Monte Carlo) e pregando contra a vulgarização provocada por excesso de exposições, abertura de memorais e exibição de filmes como A Lista de Schindler, de Steven Spielberg, que considera desprezível.

Estado - Seu livro provocou uma série de reações em diversos países. Como analisou tais manifestações?

Norman Finkelstein - Como esperado, a reação pública ao livro tem sido esmagadoramente negativa. Quebrei um enorme tabu. Muitos estão ainda temerosos de expressar sua aprovação em público. Mesmo assim, as manifestações em particular (especialmente por e-mail) têm sido extremamente positivas. Estou grato por diversas cartas de apoio que recebi de judeus e sobreviventes do Holocausto. No meu endereço na Internet (www.normanfinkelstein.com), há um número representativo dessas cartas. Apenas um punhado delas contém críticas ou então elogios vindos de neonazistas.

Estado - O senhor soube de alguma reação entre os palestinos?

Finkelstein - Meu livro foi traduzido para o árabe pela mais prestigiosa editora do mundo árabe, a Al-Adab, em Beirute. Entretanto, ainda não tive nenhuma notícia. Tenho muitos amigos palestinos no território ocupado, mas, na atual circunstância, eles não tiveram chance de ler.

Estado - A concepção de A Indústria do Holocausto começou durante a convivência com seus pais?

Finkelstein - Certamente, o pensamento moral e político a respeito de sua experiência durante a 2ª. Guerra Mundial e seu desprezo pela indústria do Holocausto influenciaram enormemente o livro. Mas a estrutura histórica e a análise ideológica são minhas. Meus pais morreram em 1995 e eu só fui escrever o livro há um ano.

Estado - Algumas críticas publicadas em jornais acusaram-no de manipular fatos. O que o senhor pensa disso?

Finkelstein - No meu conhecimento, ninguém apontou qualquer imprecisão factual no livro. Eu faria correções na edição de bolso que logo será lançada, se erros fossem encontrados.A maior autoridade viva sobre o holocausto nazista, Raul Hilberg, declarou, em diversas entrevistas, que meu livro é "basicamente correto". Seu veredicto me interessa mais que o dos jornalistas sem conhecimento do assunto.

Estado - Como foi a recepção na Alemanha?

Finkelstein - A reação popular foi completamente negativa. Os alemães são muito "politicamente corretos" nesse assunto - por uma boa razão, é claro. Entretanto, a edição em alemão, lançada no dia 7 de fevereiro, vendeu 115 mil exemplares na primeira semana. A reação da mídia foi quase insana. Minha primeira entrevista coletiva teve a presença de 180 jornalistas. Acho que o tabu foi quebrado na Alemanha o que, no meu ponto de vista, é muito bom. Esses temas têm de ser discutidos publicamente. É importante a verdade ser contada e as mentiras, expostas.

Estado - O livro teve mais publicidade e despertou mais debates na Inglaterra do que nos Estados Unidos. Por que?

Finkelstein - Um livro que demonstrasse que o chocolate causa câncer provavelmente seria reprimido na Suíça. Os EUA são o quartel-general da indústria do Holocausto. E essa indústria tem interesse em suprimir o livro.

Estado - Por que nenhum de seus pais recebeu compensação pelo período passado nos campos de concentração?

Finkelstein - Não é totalmente verdade. Meu pai recebeu uma pensão vitalícia da Alemanha, um total de aproximadamente US$ 250 mil até o fim de sua vida. Já minha mãe não recebeu praticamente nada. Ela esperava receber uma compensação futura com o dinheiro que o governo alemão destinou a organizações judias americanas, que esbanjaram, porém, toda a quantia.

Estado - Como foi crescer sob a sombra do Holocausto?

Finkelstein - Isso não aconteceu comigo. Tive pais adoráveis e trabalhadores, que fizeram o possível por mim e meus dois irmãos. O Holocausto nunca foi imposto, mas eu era curioso, fazia muitas perguntas, ao contrário dos meus irmãos, que não sentiram um impacto tão forte da traumática experiência dos meus pais. O grande impacto foi moral: jamais ficar em silêncio diante do sofrimento de um povo, o que, para mim, significou primeiro os vietnamitas e os afro-americanos e, depois, os palestinos.

Estado - Seus pais discutiam o Holocausto como um problema moral ou político, mas nunca se referiram a seus próprios problemas. Por que?

Finkelstein - Nenhum deles jamais emitiu uma só palavra sobre o que aconteceu com suas famílias. Obviamente, tratava-se de uma experiência dolorosa, que os acompanhou até o fim da vida. Mas minha mãe nunca se calou sobre suas convicções políticas e morais, sobretudo sobre o respeito humano, baseadas no horror que ela sofreu.

Estado - O senhor nunca ficou tentado a perguntar sobre o período deles nos campos de concentração?

Finkelstein - Não. A dor que eles sentiam era insuportável e eu não queria magoá-los. Tenho certeza que, se meus vivessem pais outros 100 anos, eu continuaria sem saber o que eles passaram durante a guerra.

Estado - O que se pode entender sobre a educação do Holocausto?

Finkelstein - A proposta da chamada "educação do Holocausto" é ensinar ao mundo que não há alguém mais sofredor que os judeus e, por isso, eles merecem especial consideração. Isso é, na verdade, uma deseducação - um exercício descarado de enaltecimento étnico.

Estado - Há uma curiosa conexão entre o silêncio do pós-guerra, a diminuição do anti-semitismo no mundo ocidental e uma grande identificação do Holocausto. O que o senhor pensa disso?

Finkelstein - Como conseqüência imediata do pós-guerra, o anti-semitismo decresceu dramaticamente - nenhuma dúvida que provocado pelo Holocausto. Um certo ressurgimento foi inevitável 50 anos depois, à medida que o Holocausto se tornava assunto do passado. Por outro lado, creio que o tratamento desumano dispensado por Israel aos palestinos tanto quanto as táticas imprudentes e impiedosas das principais organizações judias dos EUA contribuíram para o atual anti-semitismo.

Estado - O senhor leu o livro IBM e o Holocausto, em que o escritor Edwin Black conta como a empresa americana forneceu ativamente tecnologia e know-how que ajudaram a Alemanha nazista?

Finkelstein - Não, ainda não li. Mas um respeitado estudioso alemão, Peter Witte, sugeriu que se trata provavelmente de outro "produto medíocre da indústria do Holocausto". Suspeito que ele esteja correto. Sempre que um livro sobre o Holocausto é tratado de forma extravagante nos Estados Unidos, tenha a certeza de que é algo imprestável. Lembra-se de Goldhagen?

 

Estado de São Paulo- 4 de março de 2001

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